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8 de março de 2008

5° Domingo da Quaresma - Ressurreição de Lázaro

Nestes últimos domingos a liturgia dominical nos apresentou um caminho batismal onde convidava as pessoas a aprofundar o seu compromisso. Ao apresentar o diálogo de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-42) percebemos que Cristo ofereceu o Dom da Água vida para saciar a sede e a busca de Deus. Depois Cristo apareceu como Luz que brilha diante das trevas. Na liturgia deste domingo, o quinto da quaresma, Cristo ressuscita o amigo Lázaro e aparece como o Senhor da vida.
O Profeta Ezequiel exerceu a sua atividade entre os anos 593 a 571 a.C. no tempo do exílio da Babilônia. É o Profeta da esperança. Certamente a experiência do exílio foi marcante e sofredora. Longe da terra prometida e do “amor de Deus” o povo de Israel foi tomando consciência da sua “situação de morte”. A situação dos israelitas era a seguinte: “nossos ossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós tudo acabou” (Ez 37,11). Assim, através do Profeta, Javé dirá: “vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel... Porei em vós o meu espírito, para que vivais, e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço” (Ez 37,12-14). Com este espírito, o Profeta reanima o povo desesperançado e mostra que o Deus de Israel é o Deus da vida e liberta o seu povo de todo tipo de opressão, dando-lhe a oportunidade para se organizar tomar consciência da sua própria dignidade.
O texto bíblico sobre a “Ressurreição de Lázaro” situa-se dentro do contexto em que o autor do Quarto Evangelho coloca os Sinais onde Jesus se revela. Poderíamos perguntar: quais seriam estes Sinais (milagres)? A Comunidade que se formou em torno do “Discípulo Amado” procurou alimentar e aprofundar a sua fé em Jesus Cristo. Aos poucos foram descobrindo que estes Sinais ou Milagres pudessem sustentar que Jesus é o enviado de Deus e que revela o “rosto de Deus”, quando diz: “quem me vê, vê o Pai” (Jo, 14,9). Estes sinais foram distribuídos da seguinte maneira: a. Primeiro Sinal: “Jesus muda a água em vinho” – (Jo 2,1-12); b. Segundo Sinal: “Jesus cura o filho do funcionário do rei” – (Jo 4,46-54); Terceiro Sinal – “Jesus cura o Paralítico”- (Jo 5,1-18); Quarto Sinal: “Jesus multiplica os pães” – (Jo 6,1,14); Quinto Sinal: “Jesus caminha sobre as águas” – (Jo 6,16,21); Sexto Sinal: “Jesus cura o cego de nascimento” – (Jo 9,1-41); Sétimo Sinal: “Jesus ressuscita o amigo Lázaro” – (Jo 11, 1-43).
Assim sendo, o sétimo sinal, que relata a Ressurreição de Lázaro é o mais importante, e situa-se no contexto da festa da Dedicação, na qual eram lidos textos do AT que falavam da ação de Javé-Pastor (cf. Ez 34,1-18; Salmo 23/22; Jo 10,1-21). Nesse sentido, o defunto Lázaro é a ovelha que ouve a voz do Pastor e sai para fora, para a vida. A ressurreição de Lázaro é apenas um sinal que aponta para uma realidade maior e mais profunda: a vitória de Jesus sobre a morte e sua glorificação. Este é o sentido do v. 4: “Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.
A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia a Este do monte das Oliveiras, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. O autor do Evangelho coloca-nos diante de um episódio familiar: a morte de um homem. A família mencionada, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: no vers. 5, diz-se que Jesus amava Marta, a sua irmã Maria e Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada pelo evangelista Lucas (10,38-42); e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (vers. 2, cf. Jo 12,1-8).
A relação de Jesus com Lázaro é de afeto e amizade; mas Jesus não vai imediatamente ao seu encontro; parece, até, atrasar-se deliberadamente (Jo 11,6). Com a sua passividade, Jesus deixa que a morte física do “amigo” se consuma. Provavelmente, na intenção do nosso catequista, o pormenor significa que Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do homem, libertando-o da morte biológica; veio, sim, para dar um novo sentido à morte física e para oferecer ao homem a vida eterna.
Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judéia ao encontro do “amigo”. No entanto, a oposição a Jesus está, precisamente, na Judéia e, de forma especial, em Jerusalém. Os discípulos tentam dissuadi-LO: eles não entenderam, ainda, que o plano do Pai é que Jesus dê vida ao homem enfermo, mesmo que para isso corra riscos e tenha de oferecer a sua própria vida. Jesus não dá atenção ao medo dos discípulos: a sua preocupação única é realizar o plano do Pai no sentido de dar vida ao homem. Jesus não pode abandonar o “amigo”: Ele é o pastor que desafia o perigo por amor dos seus.
Ao chegar a Betânia, Jesus encontrou o “amigo” sepultado há já quatro dias. Quando Jesus chega, Lázaro está, pois, verdadeiramente morto. Jesus não elimina a morte física; mas, para quem é “amigo” de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva.
Por esta altura, entram em cena as “irmãs” de Lázaro. Marta vai ao encontro de Jesus e diz: “Senhor, se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido...” (Jo 11,21). Jesus responde dizendo-lhe: “teu irmão ressuscitará”. Marta pensa nas palavras de Jesus, mas na sua concepção o seu irmão ressuscitaria na ressurreição do último dia (Jo 11,24). Jesus insiste e se revela: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isso?” (Jo 11,25-26). Neste momento Marta faz a sua profissão de fé: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu é o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao mundo”. (Jo 11,27). Marta fez um caminho de fé. Fez a sua Páscoa, passando da sua mentalidade judaica e acreditando que Jesus é Filho de Deus.
(fr. João Carlos)
A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus a chorar (Jo 11,35). Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus mostra, dessa forma, o seu afeto por Lázaro, a sua saudade do amigo ausente. Ele – como nós – sente a dor, diante da morte física de uma pessoa amada; mas a sua dor não é desespero. Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro. A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra (como era costume, entre os judeus). A pedra é, aqui, símbolo da morte definitiva. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro.
Jesus, no entanto, manda tirar essa “pedra”: para aqueles que acreditam não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta o homem da vida. A ação de dar vida a Lázaro representa a concretização da missão que o Pai confiou a Jesus: dar vida plena e definitiva ao homem.
A família de Betânia representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem acha que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu e tudo está perdido? Não. Ser amigo de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida e que dá aos seus a vida plena, em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os “amigos” de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, ele encontrou a vida plena, na glória de Deus.
A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem decepcionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode decepcionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Estejamos atentos e esperançosos, pois Cristo continua dizendo: “Eu sou a ressurreição e a vida”.
(fr. João Carlos)