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9 de fevereiro de 2008

As tentações

Estamos no início do itinerário quaresmal que nos lembra os 40 anos de Povo de Deus no Deserto e os 40 dias em que Jesus passou no deserto. É um período importante para a nossa vida cristã e espiritual. Um tempo para cada um pensar no seu Jejum, penitência e uma oração intensa. Assim estaremos nos preparando para as festas da Páscoa com um coração purificado, um espírito renovado e uma disposição mais firme e segura para continuar seguindo o Cristo, nosso Messias Salvador.

    Este Primeiro Domingo da Quaresma fala sobre as tentações de Jesus. São Mateus apresenta Jesus como o "Mestre da Justiça". Os caps. 3 e 4 poderiam ser resumidos da seguinte maneira: "com Jesus, o reino da justiça chegou". No texto Jesus se expressa: "devemos cumprir toda a justiça" (Mt 3,15). No texto de Mateus encontramos: "depois de ser batizado, Jesus logo saiu da água. Então o céu se abriu, e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e pousando sobre ele. E do céu veio uma voz, dizendo: Este é o meu Filho amado, que muito em agrada". Porém, se poderia perguntar: "como realizar a justiça do reino?" Assim, para responder e esclarecer o que significaria a "justiça do reino" o Evangelista Mateus mostra as tentações de Jesus.

    O texto do evangelho diz: "então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, depois disso, sentiu fome". (Mt 4,1-2). Vemos que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao Deserto e lá sofreu as tentações. Deserto... Neste contexto tem um simbolismo muito profundo e lembra: 1. "a gestação do projeto de Deus para o Povo de Deus do Antigo Testamento"; 2. O período em que Moisés ficou na montanha "durante quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água" (Ex 34,28); 3. O Profeta Elias que: "... se levantou, comeu, bebeu e, sustentado pela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus" (1Re 19,8); 4. 40 anos do povo no deserto: "Eu fiz vocês caminharem quarenta anos pelo deserto" (Dt 29,4); 5. E por fim, Jesus, no deserto, jejuou durante quarenta dias e quarenta noites (Mt 4,1-20).

    Na atualidade, o deserto é o símbolo de um lugar árido, seco , sem vida... que nos convida a uma interiorização, purificação, reconciliação, encontro consigo mesmo, com Deus e com os irmãos. A Espiritualidade da quaresma nos convida rever toda a nossa vida e depois de fazer a experiência do deserto, renovar a vida à luz do mistério pascal de Cristo.

    O Diabo, no deserto, tentou Jesus. Quais seriam estas tentações? Poderíamos perceber três grandes tentações: 1. Realizar a justiça do Reino mediante a abundância, 2. Realizar a justiça do reino mediante o prestígio e 3. Realizar a justiça do reino mediante o poder.


 

1. Realizar a justiça do Reino mediante a abundância (Mt 4,1-4):

O diabo é aquele que tem um projeto capaz de perverter o projeto de Deus e de Jesus. A proposta que ele faz é de que Jesus realize a justiça do Reino mediante um passe de mágica, utilizando Deus em benefício próprio: "Se és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!" (Mt 4,3). Jesus recusa ser o messias da abundância, do poder... porque o projeto de Deus é mais humano e fraterno: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus", ou seja, os mandamentos, instrumento para a criação do novo Povo de Deus em que o pão é partilhado entre todos (v. 4; cf. Dt 8,3). O texto do Deuteronômio citado por Jesus fala do tempo em que o povo vivia no deserto e se contentava em viver assim desde que tivesse pão para comer, mas pão para todos (o maná). A palavra de Javé, porém, tem objetivos mais amplos: conduzir todo o povo à plena posse da liberdade e da vida.


 

2. Realizar a justiça do Reino mediante o prestígio (vv. 5-7)    

O diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus a fim de se livrar da morte. E desta vez utiliza um texto da Bíblia (Sl 91,11-12). Jesus é convidado a se precipitar do ponto mais alto do Templo de Jerusalém, para demonstrar que Deus está do lado dele e será capaz de libertá-lo da morte. Segundo a crença popular, era nesse lugar que o Messias daria mostras de ser o enviado de Deus.

Jesus recusa ser o messias do prestígio. Recusa-se, sobretudo, a escapar da morte, pois o projeto de Deus, que é realizar a justiça do Reino, passa pela morte do Mestre da Justiça: "Não tentarás o Senhor teu Deus" (v. 7). Ser messias do prestígio é idolatria.


 


 

3. Realizar a justiça do Reino mediante o poder (Mt 4,8-10)


 

O diabo volta à carga, propondo que Jesus realize a justiça do Reino mediante a usurpação do poder: "Eu te darei todos os reinos do mundo e as suas riquezas se te prostrares diante de mim, para me adorar" (vv. 8b-9). Jesus é tentado a realizar a justiça do Reino tornando-se um líder do seu tempo. Ele têm consciência de eu poderá realizar a justiça do Reino assumindo totalmente o projeto de Deus, libertando e promovendo as pessoas.

Jesus recusa ser o messias do poder: "A Escritura diz: Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás" (v. 10; cf. Dt 6,13). A citação completa desse versículo do Deuteronômio mostra claramente que absolutizar-se no poder é repetir a ação opressora do faraó. Além disso, a última tentação deixa claro que os reinos do mundo e as suas riquezas são coisas diabólicas. Jesus tem outros caminhos para realizar a justiça do Reino.

O evangelho de hoje termina dizendo que o diabo deixou Jesus, os anjos de Deus se aproximaram e o serviram (v. 11). Vencidas as tentações da abundância, prestígio e poder, ele está pronto a proclamar e instaurar a justiça do Reino, cumprimento da vontade de Deus.


 

A Quaresma é ótima ocasião para abrir os olhos e percebermos a realidade social enquanto tal. E que muitas vezes somos tentados ao acúmulo dos bens (1ª tentação), da busca de prestígio (2ª tentação) e da concentração do poder (3ª tentação). As tentações de Jesus são um alerta para todos nós. Contudo ao iniciarmos a primeira semana da quaresma somos convidados a morrer para o pecado e ressurgir para uma vida nova totalmente voltada para o seguimento de Cristo. Assim teremos "um novo céu e uma nova terra" (Ap 21,1-2).


 


 

(enviado por fr Joao Carlos=