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28 de dezembro de 2007

Família de Nazaré

Estamos vivenciando a plenitude do Tempo do Natal. Este tempo (Natal) associa o mistério da Encarnação os temas da Sagrada Família de Nazaré e da "Mãe de Deus". A festa de hoje situa a Encarnação de Jesus no quadro da família, célula básica da sociedade humana. Focaliza a condição humana de Jesus e sugere algumas atitudes concretas para a vida cristã. A experiência da família de Jesus é posta como paradigma para toda vida familiar.

      Na festa da Sagrada Família, vemos a preocupação de José para com sua família. Ele é silencioso e não um aventureiro. O Evangelho o apresenta como modelo de pai e de chefe de família, atento aos perigos que rondam sua família, pois Herodes queria matar o menino (Mt 2,13), e José queria protegê-la e viver na felicidade da paz. Neste sentido o anjo do Senhor apareceu em sonho dizendo: "levante-se, pegue o menino e a mãe dele, e fuja para o Egito! Fique lá até que eu avise... E José pegou o menino e a mãe e partiu para o Egito"
(Mt 2,13-14).

     José foi avisado em sonho, ouviu a Palavra de Deus envolvido pelo silêncio da noite, ouviu a Palavra orientadora de Deus. Sonho, silêncio, acolhida da Palavra... são atitudes que se entrelaçam em quem está acostumado a consultar Deus e ouvir o que ele diz, na oração e na meditação da Palavra. José é o chefe de família que não decide o destino de sua família por conta própria, mas ouvindo a Palavra de Deus. Quando a Palavra de Deus não é ouvida dentro de casa; quando o silêncio da oração não é ouvido em casa, a Palavra emudece e nossas palavras tornam-se agressivas, briguentas, impedimentos da paz, risco e perigo mortal para a família, como Herodes.

     O sonho de Deus é sonhado por José, sonhando a família como local de encontro de felicidade e de paz. Existe, na realidade, uma promessa de alegria e de felicidade na família que teme a Deus, que cria espaços para o silêncio, no qual seja possível ouvir Deus. O salmista pinta uma paisagem bonita da família que assim vive: todos sentados ao redor da mesma mesa, pai, mãe e filhos, partilhando o pão, fruto do trabalho e da vida humana, na serenidade feliz da paz, que se encontra somente numa família bem ajustada e amorosa.

     A atitude de José é muito corajosa. Com sua Família ele foge para o Egito, que se tornou um país para muitos refugiados. Esta realidade lembra a migração de Jacó (Gn 46,1-4). O Evangelista Mateus vê, nesse fato, o início do processo libertador que Jesus vai inaugurar. Além de Jacó migrante, o episódio recorda também as ameaças de morte do faraó contra Moisés (cf. Ex 4,19).

     No tempo de Jesus, se esperava que o Messias, ao chegar, reeditasse os tempos de Moisés, inaugurando novo e definitivo êxodo de liberdade e vida para o seu povo. Neste sentido, Mateus lê em profundidade esses acontecimentos, vendo neles a realização das esperanças do povo: "…para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 'Do Egito chamei o meu Filho'" (Mt 2,15; cf. Os 11,1). Lidos em profundidade, esses fatos afirmam que Jesus é o novo Moisés que libertará o povo; é o Filho obediente de Deus... é o Messias esperado.

     No Egito José recebe uma boa notícia: "aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos" (v. 20b). Tem-se a impressão de que a Sagrada Família ficou pouco tempo no exílio. O anjo do Senhor lhe indica genericamente o lugar onde deverá residir (a terra de Israel, v. 20a). Cabe a José o discernimento. Ele investiga e acaba sabendo que Arquelau reinava na Judéia, como sucessor de seu pai Herodes, e tem medo de ir para lá (v. 22). José não confia em Arquelau, que reproduz a crueldade de seu pai. E por isso foge para Nazaré, na Galiléia (v. 23a).

     Nazaré é uma aldeia do interior, desconhecida em todo o Antigo Testamento. Lida com olhos da fé, essa indicação aponta para a novidade trazida por Jesus: ele dá início ao novo povo de Deus a partir de uma realidade mais simples..., porque "o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz"... e Jesus pregava: "convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo" (cf. Mt 4,15-17). Aí começa a libertação e a vida plena, pois, na perspectiva de Mateus, Nazaré é o fim do êxodo e o começo de uma vida nova, voltada para aqueles que se abriram à novidade proposta por Jesus, principalmente os empobrecidos.

     Mas, na sociedade contemporânea o conceito de família está mudando ou está repensando os seus valores. Contudo, a família é a célula base da Igreja e da sociedade, mas está passando por uma transformação profunda... Na antiguidade, a família primava pela relação vertical e de cunho patriarcal. O Pai detinha a autoridade e era responsável pela parte econômica; a Mãe atendia aos afazeres domésticos e cuidava dos filhos (numerosos); os filhos submetidos à autoridade paterna. Dava-se muito valor à AUTORIDADE...

     Na atualidade, o clima e o relacionamento familiar estão sempre em transição. Dá-se preferência ao DIÁLOGO, à co-responsabilidade, à igualdade, ao companheirismo e à amizade entre marido e esposa, entre pais e filhos. Mesmo assim a família sofre hoje muitas influências negativas e muitos fatores de desagregação.

     Quais seriam os valores básicos e permanentes de uma família?

- Comunhão inter-pessoal de Amor e de Vida...  O Amor fiel, único, exclusivo, totalizante e para sempre... Os Filhos não são vistos como propriedade ou bens adquiridos para o egoísmo possessivo de seus pais, mas como vida e prolongamento vital de um amor pessoal, que educa e orienta para a liberdade responsável. "A família é a fonte da vida e o berço da fé."  (João Paulo II)

- Comunidade aberta aos valores do mundo de hoje: A solidariedade, a responsabilidade, a fraternidade, a experiência da fé, o perdão, o diálogo...

- Igreja doméstica: Só assim a família cristã testemunhará a fé, a esperança e a caridade. Uma igreja doméstica que contribui para a santificação do mundo, a partir de dentro, à maneira de fermento. O futuro da Igreja e da sociedade está na base familiar. 



(enviado por frei João)