ZENIT - O mundo visto de Roma

Fides News Português

Gaudiumpress Feed

2 de novembro de 2007

Atos dos Apóstolos

At 1, 1-26 tem a função de ponte entre o que foi dito no 3º Evangelho e o que será narrado nos Atos dos Apóstolos. Lucas inicia Atos dos Apóstolos com um prefácio, como fez como Evangelho. Os dois livros lucanos estão intimamente vinculados entre si. Dirige-se, mais uma vez, a Teófilo. Recorda-lhe que o escrito anterior falou de Jesus. Agora acena ao Espírito Santo prometido e enviado pelo Senhor, a grande presença no livro de Atos. Antes, porém, enfatiza a ressurreição de Jesus, dado de fé, por meio de uma narração que apresenta o mestre convivendo quarenta dias com os seus. Após o prefácio, é narrada novamente a Ascensão (Lc 24,50-51 = At 1,4-11), falando-se ainda, da reorganização dos Doze: At 1, 15-26. A Igreja está pronta para se manifestar ao mundo.

Lucas desdobra a Ressurreição em dois episódios: a Ressurreição e a Ascensão (não mencionada pelos demais evangelistas). Uma vez, sós, sem a presença física do Mestre, os discípulos precisaram se organizar. O primeiro passo a ser dado, passo fundamental, era a concretização do amor fraterno deixado por Jesus. Era necessário viver a fraternidade, refletir, orar, celebrar e testemunhar a fé.

Era necessário reconstituir o grupo dos Doze. Impunha-se a substituição de Judas, antes de Pentecostes, quando se mostra a formação do novo Israel. O método usado foi o do ordálio ou do sorteio (Nm 26,55-56; 27,21). Foi sorteado Matias (abreviação de Matatias) = dom de Deus.

Diferentemente do 4º Evangelho que coloca o dom do Espírito Santo no dia da Ressurreição (Jo 20,19-23), Lucas, por motivos teológicos muito especiais o desloca para 50 dias depois da Páscoa. Como fizera com a Ascensão, ele preferiu colocá-la numa data precisa. Na ocasião os judeus celebravam Pentecostes. Festa agrícola em suas origens (Ex 23,16), nela eram oferecidas as primícias do campo: Lv 23,15ss. Como depois da Páscoa passou-se a ensinar que 50 dias depois da libertação do Egito foi feita a aliança (Ex 19ss, Pentecostes passou a ser uma festa religiosa, a festa da aliança, a festa da constituição do povo de Israel.

Lucas mostrou que antes de começar a vida pública, Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito... Com a narração de Pentecostes, Lucas ensina que aconteceu a mesma coisa com a Igreja. A narração de Pentecostes não tem uma finalidade em si mesma, mas se ordena ao discurso de Pedro: At 2,14-36. O dom do Espírito capacita a Igreja a colocar-se a serviço do Reino de Deus, falando a língua de todos os povos. Distingue-se claramente a chamada glossolalia (falar em línguas) fenômeno encontrável em 1Cor 14,2ss, do que acontece em Pentecostes: falar em outras línguas, ou em diversas línguas (xenolalia): At 2,4.

O grande discurso de Pedro mostra que os pormenores da narração estão em função da mensagem transmitida. Insiste-se no dom do Espírito Santo, tendo-se presente a concepção de Maria (Lc 1,35), o batismo de Jesus (Lc 2,22), Jesus conduzido ao deserto (Lc 4,1) e o início de sua vida pública (Lc 4,14). Agora é a vez de a comunidade testemunhar o Senhor. Restabelecida a Igreja com a eleição de Matias, ela recebe o Espírito santo tornando-se missionária. De imediato Pedro, de pé, anuncia Cristo. Surgem as primeiras conversões.

O primeiro e grande fruto do Espírito Santo é amalgar os corações num único, vinculando-os pelo amor que produz. Os primeiros cristãos procuraram de imediato concretizar o mandamento do Senhor. O esforço foi grande, pois a comunidade era formada por pessoas oriundas de diferentes localidades; At 2,5-12. Desiguais eram as condições sociais dos seus inúmeros membros: At 2,45. Diversas mentalidades. Era necessário concretizar a fé na vivência da caridade. A comunidade de Lucas não retrata tanto a exterioridade comunitária dos primeiros cristãos. Mas o interior que levava a um esforço crescente, até a chegada da comunhão definitiva.

Pedro, em seu discurso disse que o Senhor testemunhou suas palavras com milagres: At 2,22. Agora eles serão operados por meio dos apóstolos. Pedro curando um coxo explica que não o faz em seu próprio nome, ma no de Jesus. Não foi realizado por piedade, mas para a glória e para a exaltação de Cristo. A seguir tem lugar o apelo à conversão. Um coxo fora curado: At 3,1ss. Pedro e João não violaram a Lei. Mas as autoridades judaicas sentiram-se incomodadas, pois foram acusadas de terem cometido injustiça no caso de Jesus, de quem os Apóstolos anunciam a ressurreição. A comunidade era dialogante com o Pai quando os irmãos corriam perigos: At 4,23ss. Perseguia o ideal do amor: At 4,32ss.

Além dos problemas vindos de fora, começam a surgir outros no seio da comunidade abalando a sua estrutura. Ananias e Safira (At ,1-10) querem ostentar fraternidade sem assumi-la no seu espírito. A narração foi elaborada com outras reflexões e não há consenso sobre o núcleo histórico inicial. Mas enfatiza que atentar contra a vida comunitária é pecar contra o Espírito Santo.

At 5,12-16 Constitui um sumário de como viviam os apóstolos e as primeiras comunidades. Fala-se de prodígios operados pelos apóstolos, do modo harmonioso de viver, do crescimento da comunidade, de como pessoas vindas de longe os procuravam.

As autoridades queriam cortar o mal pela raiz. Que medida tomar depois do fracasso da primeira tentativa contra os apóstolos? (At 5,17-33). Em meio ao furor e fechamento aos apelos divinos, Gamaliel estava atento a tudo o que acontecia em pleno sinédrio, onde os apóstolos eram interrogados (At 5,34-42).

Antes de Pentecostes existiam: o grupo dos judeus de língua aramaica, moradores da Palestina, ligados ao templo (saduceus) e às sinagogas (fariseus); o grupo de judeus de cultura grega; e o grupo de prosélitos, pagãos convertidos. Representantes de todos esses grupos aceitaram Cristo. A crise narrada em At 6 é entre os judeus-cristãos divididos em dois grupos: os de língua aramaica (hebreus), e os de língua grega (helenistas), que se sentiam discriminados. Daí a eleição dos diáconos para o serviço de administração dos bens da comunidade destinados aos pobres. Estevão gozava de grande reputação. Virtuoso e sábio, confundia os adversários, sendo por isso perseguido, caluniado.

Lucas coloca um longo discurso nos lábios de Estevão, explicando-se ao tribunal judaico (At 7). Estevão expõe a resistência dos judeus aos apelos divinos no passado e que se repetem no presente. Aborda temas delicados para os judeus: como o de Deus não precisar de templo para ser adorado, o da superação da prática da lei para a salvação. Termina dizendo que os verdadeiros Israel não são os judeus e sim os seguidores de Cristo a quem Moisés e as Escrituras anunciaram. Assim lia os acontecimentos históricos à luz da salvação, interpretando-os e aplicando-os ao dia-a-dia. Os judeus não podiam condená-lo formalmente à morte, então o lincharam. Com a morte de Estevão estavam abertas as portas para outras mortes. É tempo de perseguição e dispersão (At 8). A narração da conversão do ministro etíope parece ocupar um lugar estratégico no livro e no pensamento de Lucas. Etiópia era considerada pelos gregos a extremidade da terra.