ZENIT - O mundo visto de Roma

Fides News Português

Gaudiumpress Feed

27 de outubro de 2007

Refletindo sobre o evangelho

A liturgia deste domingo continua mostrando a necessidade de rezar. Como vimos no domingo anterior Jesus insistia sobre esta necessidade dizendo aos discípulos: “rezar sempre e nunca desistir” (Lc 18,1). No texto de hoje, o Mestre conta mais uma parábola aos seus discípulos sobre o “fariseu e o publicano”. Este texto é próprio do Evangelista Lucas que o situa no contexto do itinerário para Jerusalém. Neste itinerário os discípulos deveriam fazer uma opção clara e definitiva por Jesus. Contudo o Evangelista quer clarificar o objetivo da Parábola: “alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (Lc 18,9).

A parábola contrapõe dois modos de ser, um fariseu e um publicano, que vão ao Templo para rezar (v. 10). Ambos buscam entrar em comunhão com Deus mediante a oração. Entre os dois há um contraste muito forte, seja quanto ao comportamento, seja quanto à idéia de religião e oração. Também a idéia de Deus que cada um deles possui é diferente. Uma é falsa, a outra é verdadeira. À primeira vista, tem-se a impressão de que o fariseu esteja certo e o publicano errado. Mas a decisão cabe a Jesus. É Ele – que conhece o íntimo das pessoas – quem irá decidir. O fariseu não pode ser juiz do publicano. Os fariseus se consideravam justos perante Deus. Acreditavam ser autênticos e puros. A própria palavra fariseu (que significa separado) denota a consciência que tinham e o rigor por eles usado na observância e aplicação da Lei de Moisés. Desprezavam os que não conheciam a Lei e os que não fossem – como eles – escrupulosos em observá-la nas minúcias. Julgavam-se aqueles que aplicavam autenticamente a Lei.

O fariseu da parábola denota a consciência e a escrupulosidade do movimento ao qual pertence. Tem consciência de não ser igual ao resto das pessoas, e por isso se dirige a Deus com altivez, rezando em voz alta, de pé, enumerando suas qualidades. Essas qualidades se caracterizam pelo não ser como os demais e pelo fazer escrupulosamente mais do que a Lei exigia. Ele não é como os outros. E passa a catalogar os pecados que evita: os outros são ladrões, injustos e adúlteros. Esses três pecados sintetizam a transgressão do Decálogo em relação ao próximo: não roube, não cometa adultério etc.

A seguir, enumera o que faz escrupulosamente: jejua duas vezes por semana. Ele é incrivelmente generoso, indo muito além do prescrito, provavelmente jejuando em representação-substituição pelos pecados do povo (é, como se dizia, uma “alma reparadora”). Além disso, paga o dízimo de todos os seus rendimentos, inclusive dos que fossem isentos de taxas dizimais. Trata-se, pois, de fariseu exemplar, íntegro em relação ao próximo e a Deus. Contudo, seu erro consiste em julgar-se, por causa disso, merecedor da benevolência divina. Deus estaria sendo obrigado a reconhecê-lo justo.

O publicano é o oposto do fariseu. Sendo cobradores de impostos, os publicanos eram, e com razão, acusados de extorsão e corrupção. Por isso tornaram-se impopulares, odiados como pessoas de moral pervertida. Enquanto exatores de taxas, eram agentes do governo imperialista e ganancioso dos romanos. Colaboravam com os opressores, via-se neles a encarnação do pecado.

Um dado importante poderemos perceber na maneira de rezar do fariseu e do publicano. O Evangelho, fala do “jeito fariseu” de rezar, colocando-se a vista de todos para vangloriar-se a si mesmo e demonstrar intolerância para com o pobre; reza sem o tempero da fraternidade, o que, de acordo com Jesus, impede que a prece seja acolhida por Deus. Depois, tem o “jeito publicano” de rezar, marcado pela postura da humildade de nem sequer levantar os olhos, bater no peito e, em vez de usar as próprias palavras, reza com as palavras de um salmo penitencial, implorando perdão pelos seus pecados (Sl 50,1; Sl 24,12); reza com o tempero do abandono. Unido a este último, mas merecedor de ressalva, tem o “jeito pobre” de rezar, característico de quem reconhece a necessidade de implorar de modo insistente (Eclesiástico 35,16-17) a proteção e a presença divina, especialmente quando se sente sozinho e abandonado por todos (2Timóteo 4,16). Este último tem o tempero da confiança total em Deus.

Assim, a liturgia deste 30º Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre cinco conseqüências da oração sobre a pessoa que reza:
a. força de ultrapassar as nuvens, se for feita com desprendimento e fé;
b. intercessão da proteção divina e fortalecimento do orante diante dos desafios, por mais ameaçadores que sejam;
c. quem reza com sinceridade e insistência atrai a força divina, é fortalecido interiormente e se mantém sereno diante dos contratempos da vida;
d. a oração transforma o coração do orante libertando-o para o amor e o respeito ao outro;
e. acolher a graça divina em seu coração, significa: tornar-se justo, santificado e repleto de paz.

(enviado por frei João)