ZENIT - O mundo visto de Roma

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4 de setembro de 2007

Regra de Santo Agostinho

CAPÍTULO I

Antes de tudo, irmãos caríssimos, amemos a Deus e também o próximo, pois estes são os dois principais mandamentos que nos foram dados. É isto que vos mandamos guardar, a vós que viveis no mosteiro.

Em primeiro lugar, foi para isto que vos reunistes em comunidade: para que habiteis unânimes na mesma casa, tende uma só alma e um só coração em Deus. E não digais "isto me pertence", mas, para vós, tudo seja em comum. O vosso superior distribua a cada de vós o alimento e a roupa, não de um modo igual para todos – pois não tendes todos forças iguais –, mas, antes, a cada um segundo a sua necessidade. Com efeito, ledes nos Actos dos Apóstolos que entre eles tudo era comum, e distribuía-se a cada um conforme a necessidade que tivesse (Act 4, 32.35).

Aqueles que no mundo possuíam alguns bens, ao entrarem no convento ponham-nos gostosamente ao serviço de todos. Porém, os que nada possuíam não procurem no convento o que fora dele não conseguiram ter. No entanto, em caso de doença, sejam devidamente tratados segundo as suas necessidades, mesmo que, antes de ingressarem no convento, nem sequer do necessário dispu-sessem. Não se considerem, todavia, felizes por encontrarem no convento o alimento e a roupa que no mundo não haviam conseguido.

Nem tão-pouco se ensoberbeçam por se verem na companhia daqueles de quem antes não se atreviam sequer a aproximar-se. Pelo contrário, levantem o coração para Deus e não procurem as coisas vãs deste mundo, não aconteça que os conventos comecem a ser úteis aos ricos e não aos pobres, se aqueles se tornam humildes e estes vaidosos.

Aqueles que no mundo se julgavam alguém não desprezem os seus irmãos vindos da pobreza a esta santa sociedade. Antes, esforcem-se por apreciar mais a convivência com os seus irmãos pobres do que a riqueza e dignidade dos seus pais. E não se envaideçam se entregaram à comunidade parte dos seus bens; nem se ensoberbeçam com as suas riquezas pelo facto de as compartilharem no convento em vez de terem usufruído delas no mundo. Na verdade, qualquer outra malícia conduz à prática de más acções, mas a soberba infiltra-se até nas boas obras a fim de as eliminar. E que aproveita distribuir os bens pelos pobres e tornar-se pobre, se a alma miserável se torna mais soberba desprezando as riquezas do que possuindo-as? Vivei, portanto, todos em unanimidade e concórdia, e honrai mutuamente a Deus em vós, pois d’Ele sois templos vivos.

CAPÍTULO II
Sede assíduos na oração nas horas e nos tempos determinados. Ninguém faça nada no oratório, a não ser aquilo para que ele foi destinado, como indica o seu nome. Se alguns irmãos, fora das horas determinadas, porventura, quiserem dedicar o seu tempo livre à oração, não sejam impedidos por quem pensou em fazer ali outra coisa.

Quando orais a Deus com salmos e hinos, senti em vosso coração o que proferem os vossos lábios. E não canteis senão o que estiver determinado; mas o que não está estabelecido que se cante não se cante.

CAPÍTULO III
Domai a vossa carne pelos jejuns e a abstinência de comida e bebida, quanto a saúde o permita. Quando, porém, alguém não puder jejuar, nem por isso tome algum alimento fora da hora da refeição, a não ser que esteja doente.

Enquanto estiverdes à mesa ouvi, sem ruído nem contestação, o que, segundo o costume, se lê, a fim de que não só a boca receba o alimento, mas também os ouvidos se alimentem da palavra de Deus.

O facto de os doentes serem tratados de maneira diferente na alimentação não deve parecer mal ou injusto aos que gozam de uma natureza mais forte. Estes, os saudáveis, não considerem os débeis mais felizes por lhes ser dado o que a eles se não dá; regozijem-se, antes, por gozarem de forças que os débeis não possuem. E se àqueles que, de uma vida mais delicada, vieram para o convento é concedido algum alimento ou vestuário ou roupa de cama que a outros mais resistentes, e por isso mais felizes, se não concede, estes devem pensar no desnível a que aqueles se sujeitaram, deixando a sua vida no mundo para abraçar a do convento, muito embora não tivessem ainda atingido a frugalidade dos outros de compleição mais robusta. E não devem todos querer o que só alguns recebem a mais (não para os honrar mas para os ajudar), a fim de que não aconteça esta detestável perversidade: no convento os ricos trabalhem quanto podem, e os pobres se tornem delicados.

Na verdade, assim como os doentes, por necessidade, têm de comer menos para não piorarem, assim também, após a doença, sejam tratados de forma a depressa se restabelecerem, ainda que tenham vindo de uma extrema pobreza no mundo. É como se a recente doença concedesse a estes o mesmo que aos ricos concedeu o seu anterior estado de vida. Mal, porém, recuperadas as forças perdidas, regressem à sua feliz norma de vida, a qual, para os servos de Deus, é tanto melhor quanto menos necessidades tiverem. Que o prazer do alimento não os retenha onde os colocou a doença. Considerem-se mais felizes os que foram mais fortes vivendo na frugalidade. Com efeito, é melhor precisar de pouco do que possuir muito.

CAPÍTULO IV
Não chameis a atenção pelo vosso porte, nem pretendais agradar pela maneira de vestir, mas sim pela maneira de proceder. Quando viajardes, ide juntos; ao chegardes aonde vos dirigíeis, permanecei igualmente juntos. No andar, no estar e em todas as vossas atitudes nada façais que ofenda os outros, mas em tudo procedei de acordo com a vossa profissão de santidade.

Quando vedes pessoas do outro sexo, em nenhuma delas se fixem os vossos olhos. É verdade que não vos está proibido vê-las quando saís; o que é pecaminoso é desejá-las ou querer ser delas desejado. Não é apenas com o tacto e o desejo, mas também com os olhares que a concupiscência se excita. E não digais que tendes o coração puro, se são impuros os vossos olhos; com efeito, o olhar impuro denuncia a impureza do coração. E quando os corações, mesmo que a língua permaneça silenciosa, com olhares mútuos, se revelam impuros e, pela concupiscência carnal, mutuamente se deleitam, ainda que sem a pecaminosa violação dos corpos, desaparece a castidade dos costumes. Aquele que fixa o olhar numa mulher e deseja que ela nele fixe o seu, não pense, ao proceder desse modo, que ninguém o vê. É sempre visto, e, não poucas vezes, por quem ele menos julga.

Mas, ainda que ninguém o veja, não será visto por Aquele que tudo observa desde o alto, por Aquele de Quem nada permanece oculto?! Poderá, porventura, crer que Ele não o vê, pelo facto de o ver com tanta paciência como sabedoria? Tema, pois, a pessoa consagrada desagradar Àquele que tudo vê, para que não pretenda agradar maldosamente a uma mulher. Para que não deseje olhar com malícia para uma mulher, lembre-se que Deus tudo vê. Na verdade, é-nos recomendado, dum modo especial nesta matéria, o temor de Deus, onde se disse: É abominação para o Senhor o que fixa maliciosamente o olhar (Prov. 27, 20).

Portanto, quando estais na igreja ou em qualquer outro lugar onde haja mulheres, protegei mutuamente a vossa castidade; porque Deus, que habita em vós, vos guardará também valendo-Se de vós mesmos.

Se, porém, notardes em algum de vós este atrevimento no olhar de que acabo de vos falar, admoestai-o imediatamente, a fim de que o mal iniciado não progrida, mas se corrija sem demora. Se, no entanto, feita a advertência, vísseis de novo, noutro dia qualquer, aquele irmão incorrer na mesma falta, então, quem o vir delate-o, como um ferido, para que seja tratado. Mas antes participe-o a outro ou ainda a um terceiro, a fim de que, perante o testemunho de dois ou três, possa ser convencido e castigado com a competente severidade.

E não vos considereis malévolos quando procedeis deste modo. Pelo contrário, sereis culpados se, calando-vos, permitis que vossos irmãos pereçam, quando os poderíeis salvar com uma simples participação. Com efeito, se um irmão teu tivesse uma ferida no corpo e teimasse em ocultá-la, com medo do tratamento, não seria, da tua parte, uma crueldade calares-te, e uma obra de misericórdia dar a conhecer a situação? Com quanto maior razão deves delatá-lo para que não se corrompa mais no seu coração!

Mas, se não se quiser corrigir, após haver sido admoestado por vós, o primeiro a quem o deveis comunicar é ao Superior, mesmo antes de o dizerdes a outros para vos ajudarem a convencê-lo e a corrigi-lo; na verdade, é preferível que possa ser corrigido mais discretamente do que levar o facto ao conhecimento de outros. Se, porém, persiste em negar, então tragam-se à sua presença os outros, mesmo toda a Comunidade, a fim de que, diante de todos, possa ser arguido não apenas por uma testemunha, mas convencido por duas ou três. Uma vez convencido o réu, este deve sofrer a sanção medicinal considerada prudente pelo Superior local, ou até pelo Superior Maior a cuja jurisdição pertence. Se recusar receber o castigo, despedi-o da vossa Comunidade, mesmo que ele não queira retirar-se. Este procedimento não seja considerado uma crueldade, mas, pelo contrário, um acto de misericórdia, visto assim se evitar que muitos outros se percam devido àquele contágio pestilento.

E o que disse quanto ao não fixar o olhar, observe-se fiel e diligentemente, por amor aos homens e ódio aos vícios, quanto ao averiguar, proibir, revelar, convencer e punir os outros pecados. Se, em algum [Irmão], o progresso do mal chegou ao extremo de receber ocultamente cartas ou presentes de alguém, seja perdoado e reze-se por ele, se espontaneamente o confessa. Se, porém, é descoberto ou convencido, imponha-se-lhe uma punição mais grave, segundo o critério do Superior local ou do Superior Maior.

CAPÍTULO V
A vossa roupa esteja em comum, ao cuidado de um ou dois ou quantos forem precisos para a limpar e proteger da traça; e, assim como vos alimentais duma mesma despensa, vesti também duma mesma rouparia. E, se possível, não sejais vós a determinar que roupa usar segundo as exigências climatéricas, nem se cada um recebe a mesma roupa que usara antes, ou a que já foi usada por outro; importa, sim, é que não se recuse a cada um o que ele necessita.

Se, porém, nesta matéria, surgem discussões e murmurações entre vós e algum reclama por receber alguma peça de roupa inferior à que antes trazia vestida, e se sente envergonhado por vestir como outro irmão, concluí daqui quanto vos falta no santo hábito do coração se litigais pelo hábito do corpo. No entanto, se, apesar disso, se vos tolera a fraqueza de vestir a mesma roupa que depusestes, colocai-a na rouparia comum e à guarda do respectivo encarregado, de modo que ninguém trabalhe para si mesmo, mas todas as vossas actividades tenham em vista o bem da Comunidade e sejam realizadas ainda com maior esmero e alegria do que se cada um trabalhasse para si próprio. Com efeito, a caridade, da qual está escrito que não busca os próprios interesses (cf. 1 Cor 13, 5), entende-se assim: antepõe as coisas comuns às próprias, e não as próprias às comuns. E, assim, quanto melhor cuidardes do bem comum do que do vosso, tanto melhor sabereis que progredistes na virtude; de maneira que, em todas as coisas de que nos servimos nas necessidades transitórias, sobressaia a caridade que permanece para sempre.
Daqui se conclui que, se alguém oferece aos seus filhos, parentes ou amigos, que vivem no convento, alguma peça de roupa ou qualquer outra coisa que consideram necessária, não se aceite às escondidas, mas se coloque à disposição do Superior, a fim de que, como coisa comum, se dê a quem dela necessite. E, se alguém oculta o que lhe deram, seja castigado como réu de furto.

Conforme o critério do Superior, a vossa roupa seja lavada por vós ou por lavadeiras, para que a excessiva preocupação com a sua limpeza não dê origem a manchas na alma. Não se impeça nin-guém de tomar banho quando a doença o exija. Cumpra-se, sem recalcitrar, o que o Superior, a conselho do médico, ordene que se faça pela saúde, mesmo que o doente o não queira. Se, porém, este quer alguma coisa que talvez lhe não seja benéfico, ignore-se essa pretensão do enfermo. É que, por vezes, mesmo que seja prejudicial à saúde, julga-se útil o que agrada. Por fim, se um servo de Deus se queixa de alguma dor, ainda que pareça nada sofrer, dê-se-lhe crédito sem hesitar. Se, porém, não existe a certeza de que, para erradicar aquela dor, está indicado o que agrada ao paciente, consulte-se o médico.

A banhos ou a qualquer outro lugar aonde for necessário ir, não vão menos de dois ou três. E aquele que precisar de sair a qualquer lado, deve ir com quem o Superior mandar.

O cuidado dos doentes, ou dos convalescentes, ou dos que sofrem de algum achaque, mesmo sem febre, deve confiar-se a alguém, que se encarregará de pedir, do comum, o que julgar ser necessário a cada um. Os encarregados da despensa, da rouparia ou da biblioteca sirvam os seus irmãos, sem murmurar. Os livros sejam pedidos, cada dia, a uma hora determinada; não se atenda quem os pedir fora dessa hora. Os encarregados da roupa e do calçado entreguem-nos, sem demora, a quem deles necessita.

CAPÍTULO VI
6. Não haja entre vós nenhuma disputa, mas, se alguma surgir, terminai-a quanto antes, não suceda que a ira se converta em ódio, e que a palha se transforme em trave, tornando a alma homicida. Com efeito, assim ledes: Aquele que odeia o seu irmão é um homicida (1 Jo 3, 15). Se um irmão ofendeu a outro injuriando-o, amaldiçoando-o ou lançando-lhe em rosto algum delito, não tarde em pedir-lhe desculpa, e o ofendido seja rápido e amável no perdão. Se, porém, a ofensa foi mútua, também mutuamente se devem perdoar, em virtude das vossas orações, as quais tanto mais santas devem ser, quanto mais frequentes forem.

Com efeito, é melhor aquele que, embora se irrite com frequência, se apressa a pedir desculpa a quem ofendeu, do que aquele que poucas vezes se irrita mas tarda a humilhar-se pedindo perdão. Aquele que nunca quer pedir perdão ou o não pede de coração, está a mais no convento, mesmo que o não mandem embora. Abstende-vos, portanto, de palavras duras. Se, todavia, alguma vez as proferirdes, não sintais vergonha de aplicar o remédio com os mesmos lábios que abriram as feridas.

Se, no entanto, alguma vez a necessidade de impor a disciplina vos levar a proferir palavras duras, mesmo que vos pareça haver-vos excedido na correcção do culpado, não se vos exige que peçais perdão aos vossos súbditos – não suceda que, ao humilhar-se demasiadamente perante os súbditos, sofra menoscabo a autoridade para governar. Mas deveis pedir perdão ao Senhor de todos, que conhece com quanta benevolência amais aqueles que talvez tenhais repreendido com algum excesso. O amor entre vós não deve ser carnal mas sim espiritual.

CAPÍTULO VII
Obedeça-se ao Superior como a um pai; e muito mais ao Superior Maior, que tem o cuidado de todos vós. Ao Superior local, principalmente, incumbe velar pelo cumprimento de todas estas coisas e, se alguma fica por observar, não se transija negligentemente, mas tente-se emendar e corrigir; o que exceder as suas atribuições ou possibilidades apresente-o ao Superior Maior, a máxima auto-ridade entre vós.

Aquele que preside não se considere feliz por dominar com poder, mas por servir com caridade. Prestai ao prelado a honra devida entre vós; mas ele, por temor perante Deus, esteja prostrado aos vossos pés. Mostre-se a todos modelo de boas obras. Corrija os inquietos, encoraje os pusilânimes, ampare os fracos e seja paciente com todos, mantenha com amor a disciplina e a imponha com temor. E, embora ambas as coisas sejam necessárias, procure mais ser de vós amado do que temido, pensando sempre que há-de dar conta de vós a Deus. Por isso, obedecendo-lhe com solicitude, compadecei-vos não só de vós próprios, mas também dele, porque, entre vós, quanto mais elevado é o lugar que se ocupa, tanto maior é o perigo que se corre.

CAPÍTULO VIII
8. Conceda o Senhor que observeis tudo isto com agrado, como amantes da beleza espiritual, exalando em vosso comportamento o bom odor de Cristo, não como servos sob o peso da lei, mas como homens livres sob a força da graça. Mas, para que possais ver-vos neste pequeno livro como num espelho e nada se deixe de cumprir, por esquecimento, leia-se uma vez por semana. E se vedes que cumpris todas as prescrições aqui apresentadas, dai graças a Deus, distribuidor de todos os bens; se, porém, algum de vós reparar haver falhado em alguma coisa, lamente o passado, precavenha-se para o futuro, rogando a Deus lhe perdoe a sua falta e não o deixe cair na tentação. Amém.